#MeuPrimeiroAbusoPolicial: relatos sobre abordagens violentas da polícia

Campanha trata da violência policial que está sobretudo na rotina daqueles que vivem nas periferias O primeiro abuso policial sofrido por Raull Santiago aconteceu há 20 anos, quando ele tinha apenas 8 anos. Segundo conta em perfil no Facebook, seu pai lhe havia dado umas moedas para comprar doces. Ele saiu então correndo pelos becos do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, para chegar à "lojinha" do seu Manoel. "Ao sair de um beco para o outro, bati de frente com vários policiais na pracinha que fica no alto do beco do peixeiro. Me mandaram encostar aos gritos, falando que eu estava indo ver se eles estavam ali para informar aos vagabundos, como eles falam. Me deram um tapa no pescoço e eu, tremendo, disse que ia comprar bala. Abri a mão mostrando as moedas e um deles me deu um tapão na mão, derrubando todas elas", conta ele, que hoje é ativista do Papo Reto, um coletivo de comunicação independente composto por jovens dos Complexos do Alemão e Penha. Relatos como este são bastante comuns nas redes sociais, que ajudaram a jogar luz sobre uma violência policial que afeta, sobretudo, moradores das periferias de grandes cidades brasileiras, não raro negros. Nos últimos 15 dias, contudo, vários desses depoimentos estão reunidos na hashtag #MeuPrimeiroAbusoPolicial. O movimento foi lançado em 16 de maio pela Revista Raça – uma publicação voltada para o público negro brasileiro – e teve um pico nesta semana. O movimento encorajou Tulio Augusto Custodio a narrar a violência que sofreu quando estava completando 20 anos, em setembro de 2004. Havia deixado um show no Pacaembu, na zona oeste de São Paulo, com um amigo e dirigia para a casa de outro amigo, que morava na rua Oscar Freire – uma das vias mais nobres da cidade –, para continuar celebrando a data. Como fazia frio, Tulio levava uma blusa e uma toca. Andava devagar, até que uma viatura da polícia encostou perto. "Em menos de 5 segundos eles gritaram ENCOSTA! Saíram com duas armas apontadas para mim. Enquanto um me revistava, outro ficava com a arma apontada na minha cabeça. Acho que foi uma das vezes que mais tremi na vida...", conta Tulio no Facebook. "Quando mostrei minha carteirinha de aluno da USP (entendi como uma 'carta de alforria' da minha perigosa condição de negritude pré assumida), eles me soltaram, e disseram: 'Não fique andando pela região que está havendo muitos assaltos. Cuidado. Ah e feliz aniversário. Não precisa tremer, estamos aqui para te proteger'". Tulio finaliza seu relato dizendo que nunca mais andou de toca nas ruas e opina: "O conceito de liberdade estética é um pouco mais delimitado para nós negros". A maioria dos relatos encontrados na Internet são de homens, jovens, negros e moradores das periferias de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. Este é o perfil não apenas das principais vítimas de homicídios no Brasil, mas também dos que mais sofrem com a violência policial, segundo várias pesquisas sobre o tema. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2016, um dos estudos mais recentes, afirma que nove pessoas são mortas todos os dias pelas polícias brasileiras.

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