Tão democrático quanto a morte, quem escapa da ação do tempo?

Tenho me observado com mais atenção. Descubro que, a pouquíssimos dias dos 62 anos, presto mais atenção ao calendário. Constato, com um misto de discreta melancolia e puro realismo, que o tempo agora está passando mais rápido... Por isso, lembrei-me dessa crônica que escrevi e publiquei no ultimo dia de 2013... Queria, com ela, alertar os meus amigos sobre os efeitos que essa instituição democrática exerce em todos nós. E confortar aqueles que não se conformam com o passar do tempo e a proximidade do "juízo final! Começo assim... Independente dos afazeres da Natureza e das pessoas, os 365 dias do ano não esperam por ninguém. Mal passamos por janeiro e fevereiro, não demora muito e lá vêm outra vez o Natal e o Ano Novo. Soldados, generais, deputados, presidentes, médicos, empresários, padres, pastores, operários, crianças, mendigos, prostitutas, criminosos, todos se submetem à lei e à ação do tempo, que se “impõem”, paradoxalmente, democráticos. Já imaginou se o dia, para nascer, tivesse que esperar a maré subir ou descer? Um pôr de sol “congelar” para que um casal de namorados possa ter mais tempo para juras de amor? A noite se estender por mais tempo para encobrir um roubo ou uma ação de guerra? Não! O tempo não espera algo ou alguém. Não transige. Ao contrário, é igual, redondo, exato, se milimetricamente cronometrado. Tem a lenda do galo que acreditava que, para amanhecer, precisaria cantar. Um dia farreou demais com a galinha, dormiu mais da conta e, quando acordou, o sol já estava alto... Mamãe me dizia: “O tempo é o melhor remédio para todos os males. Basta esperar. Mas o tempo, é bom que se diga, não espera...” Mesmo assim, com essa onipresença e onipotência, muitos tentam se eximir da mão poderosa do tempo. O melhor seria aceitá-lo, aproveitá-lo, enquanto é tempo. Do tempo, diz-se que tem duas caras. Se bem aproveitado, será um grande aliado. Se não, será seu pior inimigo. Mário Lago dizia que “o tempo não comprou passagem de volta”. Portanto, viva sempre a favor do tempo, sabendo que perder tempo é desperdiçar a vida, e correr contra o tempo é maltratar o coração. O que é seu chega com o tempo. O que não é, vai-se com ele. Lembre-se de Millor Fernandes: “Quem mata o tempo não é assassino. É suicida”. Para os mais sofisticados, surrealisticamente falando, Platão disse: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Plutarco aliviou: “O tempo é o mais sábio dos conselheiros”. Cazuza, exaltando Quintana, cancionou que “o tempo não para”... Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo. Como Mário Lago, fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra. Para os erros, perdão. Para os fracassos, uma nova chance. Para os amores impossíveis, o tempo. O tempo é algo que temos grande dificuldade em administrar. Estamos sempre a um passo atrás ou à frente. Para terminar, alerto: ou a gente passa o tempo ou o tempo passa a gente. E não deixe a borracha do tempo me apagar do seu coração. Espero que tenham tempo de ler toda a crônica...

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Dormir com alguém que ronca: genuína prova de amor…

Ruth Manus* - Retratos e relatos do cotidiano Existem, sem sombra de dúvida, milhares de formas de demonstrar amor por alguém. Levar café da manhã na cama, ajudar o outro a fazer a declaração de imposto de renda, dividir um sanduíche de mortadela, escrever longas e bonitas cartas, aguentar coisas na família do outro que, por vezes, nem na sua você aguentaria. Sim, há muitas formas de demonstrar amor. Mas existe uma prova de amor que, segundo estudos das melhores universidades, está entre as maiores do mundo: dormir ao lado de alguém que ronca. Pessoas que não fazem suas malas e vão embora apesar do ronco do outro têm um grau elevadíssimo de altruísmo e de compreensão, assemelhando-se, em alguns aspectos, à Madre Teresa de Calcutá ou ao Gandhi. As pessoas que roncam podem ser classificadas em algumas espécies: as que negam que roncam, as que quase admitem que roncam, as que roncam muito mas só admitem que roncam um pouquinho e, por fim, as que roncam tanto que nem tem qualquer condição de negar que parecem britadeiras noturnas assombrando a vizinhança. Hoje em dia, com o auxílio da tecnologia, ficou muito mais fácil provar ao roncador o tamanho do incômodo que ele gera àqueles que o cercam. Através da gravação de vídeos e de áudios fica comprovado o ato, de uma vez por todas, evitando respostas evasivas como “ela diz que eu ronco, mas eu nunca ronquei na vida, não é possível, ela deve sonhar com isso”. E, acerca do ronco em sim, há diferentes tipos de volume. Aquele ronquinho que atrapalha o sono de quem dorme ao lado, mas não chega a acordá-lo; aquele ronco médio que acorda o companheiro, mas que permite que ele adormeça de novo e, por fim, o ronco de animais suínos, que faz um barulho insuportável, sendo resistente a portas fechadas, travesseiros na orelha e tampões de ouvido. Também temos diversos comportamentos noturnos dos roncadores. Aqueles que se assustam com o próprio ronco e acordam gritando coisas como “ESSVIZGRL MONGS DA AERONAVE EU TAVA RONCANDO??!!”. Outros que roncam horrores mas são carinhosos e vão abraçando a outra pessoa até que consigam roncar exatamente em cima da orelha dela, num misto de afeto e tortura. Outros, nada dóceis, que, ao roncar, recebem do companheiro um toquinho na barriga como tentativa de reduzir o ruído ou de fazê-los virar, e, o roncador, achando que era um carinho, responde grunhidos como “sai”, “me deixa dormir” ou “pára com isso”. Seja qual for a espécie: os roncadores assumidos ou não assumidos, de volume alto ou baixo, fofinhos ou ásperos, dormir ao lado deles nunca será uma tarefa fácil. E alguém que decida, no pleno exercício da sua liberdade, ter noites turbulentas dia após dia, pela simples vontade de dormir ao lado de quem se ama, é alguém digno de algum louvor. Trata-se, de fato, de uma genuína e intensa prova de amor. Valorizem-nos, pessoas que roncam, valorizem-nos porque não está sendo fácil.

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Morte de Alanna: dor coletiva pela perda de um sorriso meigo e contagiante

Alanna Ludmilla sumiu do convívio da mãe e de todos que a amavam  no dia 1º de novembro, consagrado a Todos os Santos pela Igreja Católica, no fulgor dos seus dez anos de idade. Ficamos  em silêncio e nada publicamos.  O alarme já havia sido dado por todo tipo de mídia. A indignação e a comoção tomaram conta de todos quantos tiveram conhecimento do fato.. Vimos jovens e adultos de todas as idades, pais e mães chorando,  toda a vez que ouviam algo sobre o indefinido paradeiro da criança. Era como se esperássemos pelo melhor, o que não aconteceu, infelizmente... Alanna Ludmilla tornou-se, de repente, a filha, a irmã, a amiguinha de escola de todos  que têm um coração batendo no peito. Uma menina linda cujo sorriso encantava todos à sua volta. Nos dias recentes, vários casos de violência e morte contra menores encheram as mídias por este Brasil a fora. Claro que todos chamaram a atenção. Mas, pela proximidade, o sumiço de Allana e o consequente medo de que o pior estaria por vir causaram mais aflição e dor, no coletivo das pessoas... Com o desfecho já conhecido nesta manhã (03), cada um reagiu a seu modo. Uns gritaram, outros choraram e  houve quem sofresse em silêncio... Dona Bernarda, minha sábia e saudosa mãe, costumava dizer que suportaria tudo, menos a dor da perda de um de seus filhos. “Que Deus me dê a morte para que eu não possa enterrar nenhum deles”, costumava dizer. Imagine a dor da mãe e dos famíliares de Alanna... Nós todos, que agora nos tornamos parentes próximos dela,  vamos ter de enterrá-la, dando adeus para sempre a esse sorriso lindo, mágico, eterno que, em apenas dois dias, correu o mundo, em especial o Estado do Maranhão, como a querer amortecer em nós o peso das lágrimas e da revolta. “Agora sei que é daquele sorriso que minha alma precisava”, disse Tati Bernardi ao perder um ente querido. Todos nós precisamos do sorriso de pureza, inocência e de esperança de Allana. E só agora começamos a  nos dar conta disso... No momento em que essa certeza nos desce goela abaixo e, feito  faca afiada, perfura o nosso ventre, já que  amamos  igualmente outras Allanas – nominadas de Valentinas,  Marias, Mônicas, Mayaras, Isabelas, Brunas. Micheles; ou Josés,  Isacs, Eduardos, Gabriéis, Lucas, Pedros, e Antonios... – voltemo-nos  para a brutalidade do gesto de quem pecou contra a Humanidade, o infanticida covarde, desalmado e cruel que se aproveitou da fragilidade e da inocência de Allana para consumar sua aberração. Espera-se que seja punido de acordo com a Lei. Vamos dispensar Talião, apesar da vontade que temos de imprimir no assassino a dor proporcional que causara à sua vítima. Neste momento, e com o semblante de Allana na cabeça, melhor lembrarmo-nos de Charles Chaplin: “Creio no sorriso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror”. Uma maneira de termos conforto espiritual, cultivando a crença de que,  apesar de monstros e monstruosidades, há esperança de um futuro melhor, para nós e nossos filhos,  mesmo ainda vivendo esse terrível pesadelo. Enquanto isso não ocorre, protejamos, vigilantes,  nossos pequenos tesouros.

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Papai e mamãe, a saudade em prosa e verso: dois finados que ainda me alimentam!

Hoje (2), Dia de Finados, o Facebook me lembrou  um texto, escrito há quatro anos, e publicado neste blog, com repercussões no próprio Face... A gente escreve tanto sobre tantas coisas que de muitas nos esquecemos. São fatos dos quotidiano, que nem bem acontecem e já são atropelados por outros; são crônicas com críticas sobre os males do mundo e, aqui e ali - bem poderiam ser permanentes, diários, horários, minutais ,- prosa poética, poemas, poesia.. "Da vida faço diversos os temas: choros, sorrisos, dilemas. Sem versos  causo problemas", já dizia eu mesmo em minhas "Quatro Estações do Homem", poemas, 1997, Edições Ufma. Foi com este espírito que, num dia de saudade extrema, como hoje, produzi o texto abaixo: José Machado 2 de novembro de 2013 ·   EU SOU VOCÊS DOIS, PAPAI E MAMÃE... - Que saudades! E quanta falta me fazem. Seu Agostinho de Oliveira Machado e Dona Bernarda da Silva Machado, meus pais. Donos de uma prole de 15 cabeças, das quais 12 sobreviveram às intempéries de um lugarejo pobre e de gente desamparada. Mas os dois deram à vida por todos os filhos, trabalhando como burros de carga para nos sustentar. E sempre dando carinho, amor, atenção e direção à tropa. Minha mãe nunca fez um pré-natal, confiando à Deus e às parteiras leigas o trabalho de nossa passagem da barriga para a luz. E, mesmo com todas as condições adversas – num lugar em que meu pai tinha que dividir por três o que produzia na roça –, nunca nos faltou o básico para a sobrevivência. Nunca um deixou de ir à escola por falta de cadernos e livros. Deixamos o velho “Garapa” (Duque Bacelar-MA), de cabeça erguida, todos unidos, quase todos criados e “desarnados”. O resto a gente correu atrás, aqui na capital, tangidos que fomos das terras que jamais foram nossas... “Somos pobres, mas somos nobres”, costumava repetir mamãe para nos injetar autoestima. E isso, para mim, sempre fez a diferença. Não sou maior ou melhor do que ninguém, mas não vejo alguém maior ou melhor do que eu por essas bandas. Seja político ou general. Médico, empresário ou cardeal. Meu nome é José da Silva Machado. Bato no peito, altaneiro. Sou filho de Dona Bernarda e Seu Agostinho. Pessoas dignas e honradas. E isso me basta para ser cidadão e ser feliz.

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Assaltos e mortes em coletivos de São Luís! Correm frouxo, mas é hora de um basta!
O jovem Rondinely: mais uma vítima dos constantes assaltos a ônibus, em São Luís.

Assaltos e mortes em coletivos de São Luís! Correm frouxo, mas é hora de um basta!

Ele sobreviveu ao abandono. Filho adotivo, cresceu, estudou e, com a boa orientação dos pais, preparava-se para enfrentar o mundo adulto. Disseram-lhe que a religião cristã, a fé em Deus e a solidariedade humana eram ingredientes essenciais para a sua formação moral. E ele mergulhou de cabeça nos fundamentos de Cristo para, assim, e apesar de uma vida modesta, viver feliz. Seu nome, Rondinely Ferreira da Costa, que acabava de completar 18 anos. Foi a vida dele que outro adolescente, de 16 anos, claro que sem os mesmo atributos, deu fim, ontem (04), com um tiro na cabeça, dentro de um ônibus coletivo, no bairro da Cohab. Toda uma vida trocada por um simples aparelho celular que o rapaz, institivamente, recusou-se a entregar para o jovem bandido. Nós, que moramos em São Luís, passamos a conviver muito, nos últimos anos, com fatos como esse que, esperamos, não se agravem. Mas é revoltante presenciar essa repetição fatídica de assaltos a coletivos, sem que a nossa polícia ponha termos nessas ocorrências. Como no livro de Gabriel Garcia Marques, “Crônica de uma morte anunciada”, os assaltos se sucedem com uma incrível facilidade. A polícia até já conhece a maioria dos autores, sabe onde fica a maior parte dos locais que acontecem os assaltos, mas, mesmo assim, eles acontecem. Um trecho da Avenida Daniel de La Touche, que vai da ponte do Caratatiua ao bairro Maranhão Novo, passando pelo Ipase, já é conhecido como “rota do pânico”. E já faz tempo. Bote tempo nisso... Não vamos, aqui, dar lições à polícia de como lidar e resolver isso. Não vamos ensinar ao secretário de Segurança Pública, Jeffferson Portela, como orientar seus comandados para solucionar o caso. Ao novo governador do Maranhão, Flávio Dino, fazemos apenas um alerta: já há tempo suficiente para se levantar da mesa de mando dos Leões e dar um belo murro de indignação com a série “Assaltos e mortes cotidianos nos coletivos de São Luís” . Hoje, o são-luisense tem medo de entrar num coletivo e não mais chegar à parada final. É um circo ambulante de horrores onde continuamos a perder para o crime os nossos pais, filhos e irmãos. Portanto, está mais que na hora de um basta.

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Morte de “Gabo”, luto na terra e em Macondo! O legado universal de García Márquez e o amor dos leitores
O homem que fez o mundo festejar a literatura com o seu "Cem Anos de Solidão"

Morte de “Gabo”, luto na terra e em Macondo! O legado universal de García Márquez e o amor dos leitores

Não sabemos ainda o que dirá o futuro, mas, graças às características desta época, García Márquez demonstrou sua capacidade de cativar gente de muitas culturas Mais que uma história de vida. Nada tem a ver com a morte... WILLIAM OSPINA* Era meia-noite quando se abriu a porta do apartamento de Bogotá onde celebrávamos a estreia da peça Diatribe de Amor Contra um Homem Sentado, e García Márquez apareceu com uma notícia nos lábios: “Acabam de matar Luis Donaldo Colosio!”. Luz Marina Rodas, a gerente do teatro, havia me convidado naquela tarde para a estreia, acrescentando com incerteza que talvez tivéssemos a presença do autor. O autor não se havia deixado ver no teatro, embora alguém contasse depois que, apagadas as luzes, sua silhueta se instalou na última fila. Os convidados saímos depois para a casa da festa, com Laura García, a protagonista do monólogo, o diretor, Ricardo Camacho, e outros amigos. Já nos havíamos conformado com a ideia de não vê-lo quando García Márquez chegou com a notícia. Vinha tarde porque havia ficado falando ao telefone com Carlos Fuentes e outros amigos do México. Eu o havia lido desde os meus quinze anos, mas não o contava entre os humanos aos quais fosse possível conhecer, a sim entre os clássicos da literatura; para mim, pertencia mais à lenda que ao mundo físico. Cem Anos de Solidão havia causado uma comoção nas nossas letras e iniciara várias gerações na literatura. Exceto por Jorge Isaacs, Vargas Vila, José Asunción Silva e José Eustasio Rivera, os escritores colombianos eram até então glórias locais; mas Gabo tinha triunfado no mundo inteiro: não era lido só em inglês e em francês, era lido em húngaro, em mandarim, em lituano, em tâmil, em japonês, em árabe. E quando em 1982 lhe chegou o Prêmio Nobel, fazia muito tempo que já era um dos romancistas mais famosos do mundo. Eu inclusive sentia que a fama presente de Gabo era maior que a de todos os seus congêneres. Em vida, Shakespeare só foi conhecido pelos londrinos que frequentavam o teatro; Voltaire e Goethe tiveram em seu tempo uma fama escassamente europeia; Cervantes demorou séculos até chegar à Alemanha e à Rússia, embora acabasse por fascinar Heine, Tolstói, Thomas Mann, Dostoiévski e Kafka. Em Panamá, Jorge Ritter encontrou-se em um dia com García Márquez e perguntou-lhe pela novela na que estava trabalhando. “Já está lista”, lhe contestou Gabo, “só falta a escrever” Naquela noite, tive o privilégio de conhecer a maior lenda da nossa literatura, mas o que mais me surpreendeu foram sua simplicidade e sua proximidade. Quando nos sentamos à mesa frente a frente, contei-lhe que por acaso havia relido Cem Anos de Solidão dias atrás, e que um episódio me tinha impressionado especialmente. Quis saber qual, e lhe falei do momento em que o coronel Aureliano Buendía volta derrotado a Macondo e, doente, em uma cela, recebe a visita da sua mãe. Comoveu-me que ela permanecesse por um momento visitando-o em completo silêncio, enquanto ele jazia em sua cama de armar, com os braços estendidos para trás pela dor das axilas inflamadas. Esse silêncio entre dois seres que tinham tanto a se dizer e que tanto se assemelhavam em sua vontade obstinada e em sua capacidade de colocar os outros para girarem ao seu redor me parecia muito eloquente. Nesse episódio, quando Úrsula vai se retirar, lhe diz bruscamente: “Trouxe um revólver para você”. “Não vai me servir de nada – responde o coronel –, mas deixe-o, porque vão solicitá-lo na saída.” Gabo ia repetindo os diálogos à medida que eu os recordava, e passei à cena seguinte, quando os soldados tiram Aureliano da sua cela para conduzi-lo ao paredão, pelo caminho do cemitério. De repente se abre a janela da casa onde seu irmão vive com Rebeca Buendía; José Arcadio sai com um rifle, mira os homens do pelotão de fuzilamento, que na verdade sentem alívio, pois não querem matar o coronel, e salva o seu irmão no último instante. Gabo então me fez uma revelação: “Observe que nos meus planos o coronel ia morrer fuzilado, e era ali onde o executavam. Por isso o romance começa com o momento em que o coronel, diante do pelotão de fuzilamento, recorda aquele episódio da sua infância em que seu pai o levou para conhecer o gelo. Mas, quando estava contando como os soldados o levavam para o cemitério, recordei que nessa rua vivia José Arcadio, e ocorreu algo que eu não havia previsto: o irmão tomou o fuzil, saiu da casa e salvou o coronel”.

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CRÔNICA DO TEMPO, O SENHOR DA RAZÃO…
José Machado, José Machdo Júnior, Mayara, Eduardo Augusto, Bruna Raquel e Igor José, por ordem decreescente de idade.

CRÔNICA DO TEMPO, O SENHOR DA RAZÃO…

Independente dos afazeres da Natureza e das pessoas, os 365 dias do ano não esperam por ninguém. Mal passamos por janeiro e fevereiro, não demora muito e lá vêm outra vez o Natal e o Ano Novo. Soldados, generais, deputados, presidentes, médicos, empresários, padres, pastores, operários, crianças, mendigos, prostitutas, criminosos, todos se submetem à lei e à ação do tempo, que se “impõem”, paradoxalmente, democráticos. Já imaginou se o dia, para nascer, tivesse que esperar a maré subir ou descer? Um pôr de sol “congelar” para que um casal de namorados possa ter mais tempo para juras de amor? A noite se estender por mais tempo para encobrir um roubo ou uma ação de guerra? Não! O tempo não espera algo ou alguém. Não transige. Ao contrário, é igual, redondo, exato, se milimetricamente cronometrado. Tem a lenda do galo que acreditava que, para amanhecer, precisaria cantar. Um dia farreou demais com a galinha, dormiu mais da conta e, quando acordou, o sol já estava alto... Mamãe me dizia: “O tempo é o melhor remédio para todos os males. Basta esperar. Mas o tempo, é bom que se diga, não espera...” Mesmo assim, com essa onipresença e onipotência, muitos tentam se eximir da mão poderosa do tempo. O melhor seria aceitá-lo, aproveitá-lo, enquanto é tempo. Do tempo, diz-se que tem duas caras. Se bem aproveitado, será um grande aliado. Se não, será seu pior inimigo. Mário Lago dizia que “o tempo não comprou passagem de volta”. Portanto, viva sempre a favor do tempo, sabendo que perder tempo é desperdiçar a vida, e correr contra o tempo é maltratar o coração. O que é seu chega com o tempo. O que não é, vai-se com ele. Lembre-se de Millor Fernandes: “Quem mata o tempo não é assassino. É suicida”. Para os mais sofisticados, surrealisticamente falando, Platão disse: “O tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”. Plutarco aliviou: “O tempo é o mais sábio dos conselheiros”. Cazuza, exaltando Quintana, cancionou que “o tempo não para”... Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo. Como Mário Lago, fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra. Para os erros, perdão. Para os fracassos, uma nova chance. Para os amores impossíveis, o tempo. O tempo é algo que temos grande dificuldade em administrar. Estamos sempre a um passo atrás ou à frente. Para terminar, alerto: ou a gente passa o tempo ou o tempo passa a gente. E não deixe a borracha do tempo me apagar do seu coração. +++ Homenagem a todos os meus amigos do Facebook e do blogdomachado.com.br, quando se finda mais um ano, espaço de tempo padrão para a Humanidade. Espero que tenham tempo de ler toda a crônica. José Machado

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A chuva cai. Levanta-se a esperança!

CRÔNICA DA SEMANA “Oficialmente”, vivemos a primavera, a estação do ano que tem início com o fim do inverno. No Hemisfério Sul, a primavera começa no dia 23 de setembro e termina no dia 21 de dezembro - no Norte, essa estação se inicia no dia 22 de março e termina em 21 de junho. Hoje cedinho, próximo ao amanhecer, uma chuvinha fina, intermitente, ‘zoava’ no telhado de casa. Corri para a net, apesar da vontade de permanecer na cama. Fui verificar mesmo em que estação estávamos, aqui em São Luís. Sim, a capital. Porque se estivéssemos no Sul do Estado, como comprovei há duas semanas, lá, já estava chovendo ‘barbaridade, tchê’, como dizem os ‘maragaúchos’ plantadores de soja. Recorde-se que, em são Luís, este ano, choveu, com maior ou menor intensidade, até agosto. Com a chuva de hoje, de ‘verão’ tradicional, tivemos apenas dois meses – setembro e outubro. Pois foi só passarem ‘Todos os Santos’ e ‘Finados’, e São Pedro abriu logo as torneiras sobre a Ilha do Amor. Talvez cansado de ouvir clamores e horrores sobre a crônica falta d’água nas torneiras. Pode ter sido também pela reclamação contra o calor intenso, apesar do vento temperado de Ipaon-Açu. Bom demais a chuva para quem está em casa. Porém, cruze o portão e veja que alvoroço... Dezenas de acidentes, na ruas – principalmente com os carros de pneus “carecas” que deslizam como se a pista tivesse sabão, e o trânsito engarrafado... A Cemar, coitada, por conta do salitre que corroe suas linhas, fica aterrorizada com as primeiras chuvas - “pipocam” fios para tudo quanto é lado e haja 116, não dá pra quem quer... Se os céus derramarem pingos grossos por algum tempo já vão mexer é com o prefeito da cidade, que ainda nem tapou todos os buracos do inverno passado nem pagou as contas por obras mal feitas na gestão anterior... Que a chuva não venha aos borbotões, com muito vento e trovoadas, e provoque tragédias. Mas uma chuvinha, tipo de a que caiu hoje, sempre é benvinda! Aplaca o calor, retoca a natureza, pintando-a de verde, renova esperanças. A chuva tem esse dom. De realçar a vida.

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Que coisa!
Que coisa é essa???????

Que coisa!

O texto a seguir, “Que coisa!”, chegou-me pelas mãos do amigo Roberto Rocha que o mantém, inclusive, postado em sua fanpage. Acheio-o tão interessante que repeti sua leitura no programa de rádio “Bastidores da Capital”. Não sei quem é o autor, mas se o soubesse, citaria, para fazer justiça à sua criatividade e maestria com as palavras. Trata-se de uma espécie de louvação à palavra “coisa”, que funciona muitas vezes como uma muleta gramatical e/ou verbal a que muitos recorrem para definir qualquer coisa que não tenham (ou não lembrem) na memória. Por isso, o autor trata-a como “um bombril do idioma”, ‘coisa’ de ‘mil e uma utilidades’. Confiram:

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