O marqueteiro brasileiro que importou o método da campanha de Trump para usar em 2018

André Torretta se associou à Cambridge Analytica, polêmica agência que trabalhou para o republicano "Estou te enganando? Não, estou apenas entregando o que você quer ver", diz sobre a estratégia “Eu comprei uma praia e não quero que as pessoas entrem. Qual é a melhor placa para eu fincar na areia?”, perguntou o marqueteiro André Torretta, enquanto mostrava duas fotos em uma apresentação de Power Point em seu MacBook. “Essa, dizendo que a praia é privada, ou essa, dizendo que a praia tem tubarão? A que tem tubarão funciona mais”, disse, sorrindo, em seu escritório, um coworking colorido e ostensivamente descolado em um bairro nobre de São Paulo. E se não houver tubarão na praia será uma mentira, certo? "Se não tiver tubarão, então é uma fake news”, concedeu. “Eu não vou fazer isso, mas isso existe, é possível e dá para ser feito, no limite da ética”. A polêmica - campanha de Donald Trump nos Estados Unidos. A estratégia utilizada é traçar a personalidade dos indivíduos com base em preceitos clássicos de psicologia e nos rastros digitais que deixamos diariamente, como perfis em redes sociais, GPS de locais visitados, dados de uso dos serviços públicos e compras online. A partir daí, eles dizem serem capazes de produzir mensagens moldadas em nível praticamente individual. E trabalham para que elas cheguem. No alvo. Desde que Trump venceu, a Cambridge Analytica, que se vangloria de ler a cabeça de 210 milhões de norte-americanos, não saiu do centro da polêmica. Tem como principal acionista o bilionário Robert Mercer, conhecido por ter mudado o Wall Street usando big data e por ser um importante financiador de ativistas conservadores e de ultradireita. Há acadêmicos nos EUA e no Reino Unido se dizendo aterrorizados com a empresa, uma máquina de propaganda de mira precisa e que, se utilizada com poucos escrúpulos, pode ser daninha. Outros dizem que há muito automarketing e são céticos sobre o que, de fato, o método da consultoria pode entregar. "A Cambridge fez uma propaganda que parece que há um monstro por trás, mas não é. Trata-se de deixar a coisa eficiente", se apressa Torretta, que diz ter adaptado a estratégia da empresa por causa das diferenças legais e tecnológicas entre os dois países. "Eu tropicalizei a metodologia." Se nos EUA a fama da Cambridge está associada ao CEO Alexander James Ashburner Nix, um britânico de 41 anos que só aparece vestindo ternos bem cortados, óculos de grife e cabelos bem penteados, André Torretta é, definitivamente, mais tropical. Na sexta-feira em que recebeu o EL PAÍS, o marqueteiro que trabalhou por 20 anos no ramo e em campanhas como a dos maranhenses José e Roseana Sarney e do tucano Fernando Henrique Cardoso não usava terno e exibia uma chamativa camisa lilás. Os óculos, de aro grosso, não eram de marca definível. Não parou de fazer piadas, muitas consigo mesmo. "Minhas piadas são em off, pelo amor de Deus." Disse não saber falar inglês e passar longe do perfil de gênio da tecnologia. Mesmo assim, garantiu, foram os britânicos sensação no mundo do marketing político mundial que o procuraram, e não o contrário.

Continuar lendo O marqueteiro brasileiro que importou o método da campanha de Trump para usar em 2018