“PROGRESSO” – Análise de Abdon Marinho sobre  artigo de Sarney
Abdon Marinho repõe o conceito de "progresso" e "atraso"

“PROGRESSO” – Análise de Abdon Marinho sobre artigo de Sarney

 

Abdon Marinho, advogado – direto de sua página, no Facebook


Colho da coluna do senador Sarney deste domingo, 17/11/2013, seguinte trecho: “Hoje o Maranhão é uma referência nacional de progresso”, trata-se uma afirmação importante, ainda mais vinda de onde vem. Minha educação de interior ensina que se deve respeitar as palavras dos mais velhos, por isso mesmo ao invés de contestá-las com veemência — meu pai já dizia que que tem vergonha, não faz vergonha aos outros—, iremos sopesá-las com o nosso entendimento.
Que o Maranhão reúne as condições para atrair investimentos de toda ordem, sabemos desde sempre, o que ignoramos é os motivos de não tê-los atraídos antes. Estes são mistérios insondáveis. É inacreditável, e eu dizia isso ontem no post “o Maranhão fracassou?” que o Maranhão é um desafio à lógica, pois possuindo tantas condições para se desenvolver é um estado atrasado.
Hoje o senador afirma que o Maranhão é uma referência nacional em progresso. E eu não vou duvidar, por uma questão de educação das palavras dele, suponhamos que esteja certo, do que nos interessa o progresso se ele não vem junto com melhorias na infra-estrutura das cidades? A Caema explora o sistema de água e esgoto no estado inteiro, em quantos municípios ela já fez alguma rede de esgotos? O Maranhão é um dos estados que possui a menor rede de esgoto do Brasil, acho que capital não tem metade da rede necessária.

Abdon Marinho repõe o conceito de “progresso” e “atraso”

De que nos serve sermos referência em progresso e ele não vem acompanhado de uma melhor educação para os nossos jovens? Os últimos censos educacionais apontam o estado numa das piores situações neste quesito, salvo melhor juízo as piores escolas de ensino médio estão no nosso estado. Falei disso ontem, se colocarmos na ponta do lápis os estudantes da rede estadual e municipal do ensino público não têm mais que duas horas de aula/dia. Me respondam, como isso pode dá certo?
O senador fala das estradas que estão sendo feitas e que interligarão todas as sedes municipais. Não duvido que façam, mas conheço o tipo de serviço que vêm fazendo. Não estão fazendo estradas, estão asfaltando caminhos. Estão jogando o dinheiro do contribuinte no mato, literalmente. Não dou dois anos para que estas estradas precisem de reparos que consumirão outra fábula de recursos.
O senador fala também dos hospitais. São de fato um alento. Entretanto, qualquer um sabe que as pessoas do Maranhão continuam indo buscar atendimento médico de verdade é nos estados vizinhos. Existem até negócios em torno disso. Acho que o papel destes nossos hospitais sejam apenas de atenção básica, fazer um curativo ou um parto, e olhe lá.
De que nos serve esse progresso cantado em prosa e verso se ele não vem junto com uma distribuição de renda, se o Maranhão ostenta os piores indicadores neste sentido? Os números do IDH que falei aqui algumas vezes, mostram o Maranhão à frente apenas de Alagoas. Vejam que descompasso, enquanto dizem que o estado é o que mais atrai investimentos, enquanto dizem que somos o 16° PIB da nação, no índice de desenvolvimento Humano, estamos à frente apenas do paupérrimo Estado de Alagoas. Como explicam isso se dizem que têm um projeto de desenvolvimento desde o ano de 1965? Meio século é tempo suficiente para transformar muitas coisas, sobretudo quando se tem condições tão favoráveis. Porque não saímos do atraso?
De que nos serve esse progresso se os municípios maranhenses não produzem mais nada, se nem mesmo agricultura de subsistência temos mais? O preço da farinha que ano passado atingiu um preço elevado, isso decorre do fato de não termos mais produção nem de mandioca. A pequena agricultura do estado, que garantia milhares de empregos e sustento de outro tanto de famílias com sua produção agrícola, sua criação de galinhas, de porcos e gado estacionou no século passado e de lá ameaça não sair tão cedo.
Na sua preleção sobre o grande Maranhão, senti falta de um assunto: segurança pública. Nunca se matou tanto no Maranhão quanto agora. Apenas para se ter uma ideia em 2002 o número de homicídios/ano, as chamadas “mortes matadas” foi 194, só este ano já chegamos a 800, se não chegou, chega nestes dois dias. Essa violência não se restringe aos grandes centros, alcança todo o interior, até os menores municípios ninguém se sente seguro, embora com essa matança toda o secretário diga que a sensação de insegurança é artificial.
Pelo que vejo, de tudo que foi dito sobre o nosso progresso, a única coisa que, efetivamente, tem sobrado para o nosso povo, são os seus efeitos danosos, materializado nas matanças quase diárias, na insegurança no campo e na cidade, no tráfico de drogas. Nossa governadora, uma excelente administradora, segundo disse o senador, e eu o perdoo por isso, pois somos belos aos olhos de quem nos ama, parece sequer saber de que lado vem os tiros.
Se estes são os sinais do progresso que legaram neste meio século, de que nos serve?

José Machado

José da Silva Machado. Natural de Duque Bacelar - Maranhão, onde nasceu em 14 de junho de l957. Graduado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Maranhão, especialização Jornalismo. Foi repórter, editor e secretário de Redação nos jornais Pequeno, O Imparcial e Diário do Norte, em São Luís. Também foi diretor de Telejornalismo na TV Difusora (Rede Globo), no período 1985/198). Exerceu o cargo de Secretário de Estado de Imprensa e Divulgação do Governo do Estado (2006-2007). É poeta e escritor, tem lançado o livro "As Quatro Estações do Homem" e conclui o livro; "Os vinte contos de réis". Pai de 5 filhos e 1 neto.

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