Para estudante pesquisar! Há 30 anos, o Congresso negava ao Brasil as eleições diretas
O famoso comício da Candelária e as ruas do Rio tomadas pelos manifestantes, exigindo "diretas, já" (Arquivo O Dia)

Para estudante pesquisar! Há 30 anos, o Congresso negava ao Brasil as eleições diretas

Campanha das ‘Diretas, já’ consagrou Ulysses Guimarães,

Tancredo Neves e Dante de Oliveira. Faltaram só 22 votos

para que o projeto fosse transformado em lei.

JULIANA DAL PIVA

Há 30 anos, completados neste 24 de abril,

O famoso comício da Candelária e as ruas do Rio tomadas pelos manifestantes, exigindo “diretas, já” (Arquivo O Dia)

Na Cinelândia, uma multidão acompanha voto a voto o placar da sessão que derrotou e frustrou as “diretas já

a praça da Cinelândia no Centro do Rio, assim como muitas outras pelo país, vibrava e acompanhava atenta aos chamados “placares das diretas”. A expectativa e a torcida estavam sintonizadas com cada voto dado no Congresso Nacional para a aprovação da Emenda Constitucional que ficou conhecida como Diretas-Já.

Era a reta final de uma campanha intensa pelas ruas do país, a maior desde o Golpe Militar de 1964. Poucos dias antes dois comícios haviam reunido no Rio (Candelária) e em São Paulo (Vale do Anhangabaú) quase 2,5 milhões de pessoas.

Nas manifestações vários políticos que tinham voltado ao país após a Lei de Anistia lideravam o movimento. Naquela época voltaram aos palanques Leonel Brizola e Miguel Arraes, acompanhados também de Ulysses Guimarães, André Franco Montoro, Mário Covas, Luís Carlos Prestes, Fernando Henrique Cardoso e do líder sindical do ABC paulista, o agora ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O clamor pela democracia também fez com que craques, como o à época o corintiano Sócrates, e artistas como Mário Lago, Gianfrancesco Guarnieri, Fafá de Belém, Chico Buarque, Martinho da Vila e muitos outros aderissem às “Diretas já!”. Mas a comoção Brasil afora não foi suficiente para que o fim da ditadura fosse marcado por nova votação popular para presidente já em 1984: faltaram 22 votos para que a medida fosse aprovada.

Entre os votos que faltaram, estavam 113 deputados ausentes e três que se abstiveram. Apenas 65 votaram contra o projeto. Procurados, alguns dos personagens centrais para decidir a votação,que completa 30 anos nesta sexta-feira, dizem que eram a favor do projeto, mas temiam uma reviravolta na ala radical dos militares.

O deputado federal Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) era líder do então PDS, partido que herdou os integrantes da Arena a partir de 1979, e não foi ao Congresso no dia da votação. “Eu era a favor das eleições diretas. Mas não queria contrariar o meu partido e, por outro lado, achava que a posição do partido apresentava justificativas para a prudência política. Resolvi não votar”, afirma o deputado.

O político diz que a preocupação era com a volta de movimentações militares, como o atentado do Riocentro, em 1981 . “Tinha um grupo muito radical, e ele ficava buscando motivo para fazer agitação e criar dificuldades. A coisa era mais complexa do que parecia”, alega Bonifácio.

O deputado afirma que não houve pressão do governo na votação. Mas entre os ausentes, a maioria era do PDS:112. Bonifácio de Andrada diz até que havia um rumor de que o presidente João Figueiredo era a favor da medida. “Havia boatos na época de que o próprio João Figueiredo era a favor das eleições diretas”, conta.

Deputado alega que era inviável

O ex-ministro da Agricultura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e atual deputado federal Reinhold Stephanes (PSD-PR) acompanhou as 16 horas em que se discutiu e votou o projeto. Ao lembrar daquele dia, que era do PDS à época, diz que não se arrepende de ter deixado de votar da favor das Diretas. “Eu me abstive porque não podia ser contra. Era um movimento legítimo, estava criando um clima positivo na nação, mas era algo que tinha dificuldades de se viabilizar”, alegou.

De acordo com ele, ao colocar as pessoas na rua, os líderes do movimento criavam uma comoção importante, mas dentro do Congresso se sabia que as chances de aprovação eram mínimas. “O movimento era político e de afirmação democrática. Tinha mais essa finalidade, e seus líderes sabiam que naquele momento era inviável”, avaliou Reinhold Stephanes.

A impossibilidade se daria pela falta de tempo e pelo risco de os militares indicarem um candidato. O nome de Tancredo Neves despontava pela aceitação tanto de grupos civis como pelos militares. Stephanes diz que optou por integrar um grupo de 20 dissidentes do PDS que trabalhou para barrar a eleição de Paulo Maluf, o candidato oficial, e viabilizar a vitória de Tancredo Neves no pleito indireto.

Sem eleição, opção por Tancredo

A Emenda das Diretas-Já também é conhecida como Emenda Dante de Oliveira — nome do deputado que recolheu assinaturas para promover a ação. Com a derrota do projeto, em 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves foi eleito no Colégio Eleitoral para um mandato de seis anos. Ele recebeu 480 votos, contra 180 de Paulo Maluf, candidato da ditadura. Mas Tancredo morreu antes de assumir, dando lugar ao vice, o atual senador José Sarney.

José Machado

José da Silva Machado. Natural de Duque Bacelar - Maranhão, onde nasceu em 14 de junho de l957. Graduado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Maranhão, especialização Jornalismo. Foi repórter, editor e secretário de Redação nos jornais Pequeno, O Imparcial e Diário do Norte, em São Luís. Também foi diretor de Telejornalismo na TV Difusora (Rede Globo), no período 1985/198). Exerceu o cargo de Secretário de Estado de Imprensa e Divulgação do Governo do Estado (2006-2007). É poeta e escritor, tem lançado o livro "As Quatro Estações do Homem" e conclui o livro; "Os vinte contos de réis". Pai de 5 filhos e 1 neto.

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