O calvário de Dilma Rousseff – Por Matheus Pichonelli
Nos bastidores, esse sorriso de lançamento de campanha é substituído por muita preocupação com o futuro do PT, depois de outubro...

O calvário de Dilma Rousseff – Por Matheus Pichonelli

Há quem veja a eleição de 2014 como a mais difícil para o PT desde 2002. Naquele ano os institutos de pesquisa apontavam no eleitorado um sentimento de mudança. Lula venceu. Nos outros embates o sentimento era de permanência: havia números sobre economia e inclusão social favoráveis ao continuísmo e o eleitor, apesar de levar as disputas até o segundo turno em todas as ocasiões, decidiu prorrogar o mandado petista, primeiro com a reeleição de Lula, em 2006, depois com a escolha de sua sucessora, Dilma Rousseff, em 2010.

Em 2014 o cenário é diferente. Fatores que levaram ao triunfo petista nas últimas disputas, como o favoritismo no Nordeste e a rejeição no Sul sob controle, são algumas das principais incógnitas da eleição deste ano. São muitos os desafios até a reeleição, e este blogueiro lista dez deles no post abaixo.
 

Nos bastidores, esse sorriso de lançamento de campanha é substituído por muita preocupação com o futuro do PT, depois de outubro…


Mercado inquieto
O mercado não quer Dilma, e isso não é apenas o Santander quem diz com todas as letras. As ações na Bolsa oscilam para cima e para baixo conforme o desempenho da presidenta nas pesquisas. Em parte por puro terrorismo eleitoral: época de eleição é uma boa época para especular e ganhar dinheiro ou promessas. Mas em parte também, segundo o mesmo mercado, devido à intervenção excessiva do governo em setores estratégicos da economia, sobretudo no controle dos preços de combustíveis e nas manobras contábeis da política fiscal. Um recado já foi dado: até o momento, Aécio Neves (PSDB) já arrecadou entre os empresários praticamente o mesmo dinheiro para a campanha do que a candidata à reeleição.

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Economia desaquecida
De marola a crise internacional não tinha nada. O cenário internacional, que jamais se recuperou totalmente do tombo de 2008, produz reflexos na economia doméstica e, com eles, uma série de más notícias. O índice de desemprego é um dos menores já registrados no País, mas a criação de vagas formais já não mantém o ritmo de períodos anteriores. Os índices sobre produção industrial e sobre o otimismo dos investidores também não são animadores. A inflação flerta perigosamente com o teto da meta. E nada indica que o Brasil voltará a crescer mais de 2% nos próximos anos. O humor do eleitorado na hora do voto dependerá do quanto os índices e projeções da macroeconomia serão sentidos na carteira e na ponta do lápis até outubro.

Popularidade em queda
Em 2010, Dilma foi ao segundo turno da disputa presidencial no auge da popularidade de seu fiador politico, o presidente Lula, que chegou ao fim do mandato com uma gestão aprovada por 83% dos brasileiros. Em julho deste ano, o governo Dilma era considerado “ótimo” ou “bom” por apenas 31%, contra 36% que o avaliam como “regular” e 33%, como “péssimo” ou “ruim”. Segundo o Ibope, de 0 a 10, a nota média dos entrevistados para a presidenta foi de 5,4. Será suficiente para se reeleger?
 
Os paulistas
Quase metade do eleitorado em São Paulo (47%) afirmou, no Datafolha mais recente, que não votaria em Dilma Rousseff de jeito nenhum. O maior colégio eleitoral do País, com 22% dos votos, é o estado onde a presidenta enfrenta a maior rejeição (na capital, a aversão chega a 49%). Entre os paulistas, o índice de intenção de voto para a petista é o mesmo de Aécio Neves (PSDB): 25%. Nesse ritmo ela corre o risco de receber menos votos em São Paulo do que em 2010, quando ficou atrás de José Serra no segundo turno (45% a 54%) e teve de suar para tirar a diferença em redutos menos hostis.

Palanques frágeis
A rejeição dos paulistas a Dilma Rousseff tem levado o candidato Paulo Skaf (PMDB) a negar rabeira à presidenta em seu palanque. Como a candidatura de Alexandre Padilha (PT) ainda não decolou, Dilma corre o risco de falar com os grilos no estado onde mais precisa reagir para vencer a rejeição. Em Minas Gerais, estado governado durante oito anos por Aécio Neves – e segundo maior colégio do País –, a briga também deve ser dura, embora Fernando Pimentel (PT) tenha chances de vencer a disputa pelo governo. No Rio, Dilma tem quatro palanques, mas todos brigam contra todos e a ciumeira ainda não deu as caras. Ela ainda dependerá do desempenho dos candidatos de sua coligação nos estados, nem todos competitivos, para acumular gordura nos redutos onde o PT tem conseguido mais votos nos últimos anos.

Perda de aliados
O voo solo de Eduardo Campos (PSB) criou uma área de instabilidade para os planos da presidenta no Nordeste. Aliados em 2010, Dilma deve brigar palmo a palmo com o ex-governador em Pernambuco, seu reduto. Embora em situação mais confortável em outros estados, os efeitos do racha ainda não foram sentidos na região, onde o PT praticamente não terá nomes fortes para as disputas estaduais – com exceção da Bahia, onde o PT elegeu Jaques Wagner em 2006 e 2010, o PSB serviu nas últimas eleições como uma espécie de preposto da base aliada petista nos principais estados nordestinos. Hoje as siglas estão em barcas separadas na corrida presidencial e não se sabe quem afunda e quem se sobressai na disputa pelos mesmos votos dos embates anteriores.
 
A birra da esquerda
Para a esquerda, Dilma foi liberal demais: não aprofundou projetos estruturais, como a reforma política e a nova lei de comunicações, cedeu aos bancos e grandes empresários, privilegiou a iniciativa privada em concessões de estradas federais, desdenhou os impactos ambientais de megaprojetos como Belo Monte, afastou-se dos movimentos sociais, não evitou casos de corrupção em seus ministérios e se alinhou ao que há de pior da velha política para poder governar. Mobilizar a velha militância será um trabalho dobrado para não perder de vista a simpatia de um eleitorado maltratado pela realpolitik abraçada pelo PT desde 2002.
 
A birra (eterna) da direita
Para a direita, Dilma foi liberal de menos: privilegiou alianças ideológicas com parceiros como Cuba e Venezuela, em vez de estreitar laços com EUA e Europa no comércio exterior, distribuiu peixe demais em vez de ensinar os pobres a pescar, deu sequencia ao movimento bolivarianista com o programa Mais Médicos, o avanço do Prouni e do sistema de cotas nas universidades federais, criou ministérios demais, ouviu mais os movimentos sociais do que deveria, interferiu demais na economia e privatizou de menos. Para a direita, Dilma é comunista, e não tem oráculo do mercado que a convença a votar em comunista.
 
Prejuízos na Petrobras
Dilma era presidente do conselho de administração da Petrobras, vitrine da bonança dos anos Lula, quando a petroleira fechou um dos negócios mais surreais de sua história: a compra da refinaria de Pesadena, no Texas, em 2006.  Naquele ano, a estatal pagou 360 milhões de dólares à empresa belga Astra Oil para adquirir 50% da refinaria. No ano anterior, essa mesma parte havia sido comprada pelos belgas por 42 milhões. Em 2008, após desentendimentos com a sócia, a Petrobras foi obrigada a pagar 820,5 milhões de dólares para adquirir a outra metade. Desembolsou assim, um total de 1,18 bilhão de dólares por um negócio que levou do nada ao lugar nenhum, e deu combustível aos que acusam a gestão petista de imprudência com os gastos públicos.

Muito além dos 7 a 1
Sim, a Copa ainda vai dar o que falar durante as eleições. Não pelo que a seleção brasileira produziu em campo, e não foi muito, mas pelos investimentos públicos na construção de estádios desnecessários e a ausência de obras de mobilidade prometidas, como o trem-bala entre Campinas a Rio de Janeiro – que, de vedete em 2010, deve virar piada nas mãos dos adversários em 2014. O atraso nas obras do PAC 1, em um momento em que a presidenta lança o PAC3, também deve servir como armas para os palanques rivais.

José Machado

José da Silva Machado. Natural de Duque Bacelar - Maranhão, onde nasceu em 14 de junho de l957. Graduado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Maranhão, especialização Jornalismo. Foi repórter, editor e secretário de Redação nos jornais Pequeno, O Imparcial e Diário do Norte, em São Luís. Também foi diretor de Telejornalismo na TV Difusora (Rede Globo), no período 1985/198). Exerceu o cargo de Secretário de Estado de Imprensa e Divulgação do Governo do Estado (2006-2007). É poeta e escritor, tem lançado o livro "As Quatro Estações do Homem" e conclui o livro; "Os vinte contos de réis". Pai de 5 filhos e 1 neto.

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