Maranhão livre de Aftosa: quem é quem?

Maranhão livre de Aftosa: quem é quem?

José Lemos*

O Ministério da Agricultura anuncia que o Maranhão é considerado zona livre da febre aftosa, com vacinação. Mas, para o estado  chegar até aqui, e colher os frutos desse reconhecimento,  casos, descasos e inciativas corajosas tiveram de ser tomadas. O professor José Lemos, que foi secretário de Assuntos Estratégicos do governo José Reinaldo Tavares, conhece bem essa história. E narra a seguir…

Maranhão livre de Aftosa: quem é quem?*

Quando o ser humano descobriu há, aproximadamente, dez mil anos que poderia domesticar, primeiro plantas e depois animais, o mundo começava a sua primeira revolução. Aquela seria a (artigo definido) mudança na qualidade de vida daqueles seres que, antes eram apenas coletores-caçadores-pescadores. Naquela condição não poderiam ter organização social, construir um espaço fixo para morar, ter família, viver em grupo, dado o caráter nômade das suas vidas. Com aquela descoberta, também estava iniciada, talvez, a mais antiga das ciências, aquela que mudaria os rumos da humanidade, para o bem e, infelizmente, em muitos casos, para o mal.

O mundo inteiro descobriu que produzir alimentos e matérias primas agrícolas é estratégico. Onde havia inteligência em governos responsáveis pelos destinos de populações, foram priorizados trabalhos de pesquisa, fomento, assistência técnica visando manter um nível de produção de alimentos em quantidade e qualidade suficiente e ajudar a atividade a ser um negócio rentável. Afinal ali há pessoas, famílias, que precisam sobreviver e adquirir bens que não produzem. Um aprendizado que apenas não foi entendido no Maranhão, a partir do meado dos anos noventa do século passado. Na contramão do que se fazia no mundo, confrontando com a coerência e com as vocações do mais agrário dos estados brasileiros, o governo que começara em 1995 e recomeçou em 1998 no Maranhão, simplesmente retirou do organograma administrativo do estado a Secretaria de Agricultura, e eliminou as Entidades de Pesquisa e Assistência Técnica. Não satisfeito com o que fez, colocou profissionais de ciências agrárias, de todos os níveis e formação, no ostracismo. Mostrou, com aquela atitude insana, que o trabalho deles não mais servia para o estado. Não os descartaram de vez, porque havia uma legislação trabalhista que vaticinava contra tamanha maldade. Em decorrência, colegas nossos, seres humanos, tiveram que ficar em suas casas e explicar para os filhos, companheiros (as), parentes, que não tinham mais o que fazer no estado. Eram inúteis na visão de quem governava o estado, não obstante o trabalho que desenvolveram até então sem condições mínimas de realizarem-no.

Diferentemente de todos os outros estados (vai ver que todos estavam errados) substituíram as Secretarias de Estado por Gerencias. Fico imaginando o constrangimento dos “gerentes” nas reuniões nacionais de secretários de Estado, tendo que explicar para os seus pares a sua função. O resultado da aventura “gerenteadora”, foi a queda da produção de alimentos no Maranhão que, já naquele fatídico ano de 1988 (para a agricultura do estado), foi ao fundo do poço. Nunca se viu registro igual de produção de alimentos (arroz, feijão, mandioca e milho) no estado desde o pós-guerra.

Sem Secretaria de Agricultura, um rebanho de gado bovino, que na época girava em torno de quatro milhões de cabeças, não era vacinado contra todos os males, inclusive aftosa. Sem vacinação o estado mergulhava no obscuro status de está com “Risco Totalmente Desconhecido”, no que concerne à incidência daquele mal no seu rebanho. A implicação disso era que os criadores de todos os portes não poderiam negociar os seus animais, vivos ou abatidos, muito menos os seus derivados. Em abril de 2002 assumiu o governo do Estado um Engenheiro Civil que percebeu o equívoco das duas administrações anteriores. Tanto assim que um dos seus primeiros atos foi recolocar a Secretaria de Agricultura no organograma administrativo do estado. Com ela criou as Casas de Agricultura Familiar (CAF) e a Agência de Defesa Animal e Vegetal (AGED). Contratou, por concurso público, quadros para a AGED e iniciou um trabalho firme de vacinação no rebanho do Estado. Campanhas que aconteciam duas vezes por ano. Um intenso programa de divulgação mostrando a importância da vacinação, logo foi apropriado pelos criadores. Isso colocou o Maranhão, em 2005, no status mais avançado de “Risco Mediano de Aftosa”. Um degrau importante havia sido escalado, com muito trabalho, mas que ainda não permitia aos criadores maranhenses a possibilidade de venderem seus animais fora das fronteiras do estado. O desafio continuava, e consistia em intensificar as campanhas de vacinações na busca do tão almejado status de “Livre de Aftosa com Vacinação”. Jackson Lago deu continuidade no curto período em que ficou no governo. Criou-se um ambiente que não permitiria mais retrocessos. Ninguém deteria o avanço, mesmo que, por ventura, viesse alguém despreparado para governar o estado, como acontecera nos anos noventa. Finalmente recebemos a noticia de que aquela semente colocada no solo em abril de 2002, gerou uma árvore que cresceu e agora produzirá o tão esperado fruto. O Maranhão finalmente entrará na condição de “Livre de Aftosa com Vacinação”. Algumas personagens foram fundamentais para que isso seja possível, além do governador José Reinaldo. A então secretária Conceição Andrade teve a sabedoria de buscar assessorias competentes para aquela causa. O médico veterinário Anchieta foi incansável nesta luta. No governo atual também merece destaque o secretário de Agricultura, Claudio Azevedo, que, sendo do ramo e conhecedor as implicações do problema, também não deixou que vingasse qualquer tentativa de retrocesso, que por acaso viesse. Finalmente uma boa noticia para o Maranhão. Uma conquista dos criadores maranhenses de todos os portes.

Professor Associado na Universidade Federal do Ceará. www.lemos.pro.br; lemos@ufc.br.

 

José Machado

José da Silva Machado. Natural de Duque Bacelar - Maranhão, onde nasceu em 14 de junho de l957. Graduado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Maranhão, especialização Jornalismo. Foi repórter, editor e secretário de Redação nos jornais Pequeno, O Imparcial e Diário do Norte, em São Luís. Também foi diretor de Telejornalismo na TV Difusora (Rede Globo), no período 1985/198). Exerceu o cargo de Secretário de Estado de Imprensa e Divulgação do Governo do Estado (2006-2007). É poeta e escritor, tem lançado o livro "As Quatro Estações do Homem" e conclui o livro; "Os vinte contos de réis". Pai de 5 filhos e 1 neto.

Deixe uma resposta