“Flores, frutos, jardins e primaveras em Cuba”
Yglesio: médicos brasileiros x estrangeiros

“Flores, frutos, jardins e primaveras em Cuba”

Yglesio: médicos brasileiros x estrangeiros

.  Uma longa reflexão que o jovem médico Yglesio Moyses, até há poucos dias, diretor do Hospital Socorrão I, de São Luís, Maranhão,  faz sobre a polêmica importação de médicos estrangeiros para o Brasil, em especial… de Cuba. Em sua página no Facebook. Compartilho  com alguns conceitos, não concordo com tudo o  que ele diz, mas, parafraseando alguém famoso, “defendo, até a morte, o direito de dizê-lo”. Vamos ao texto…

“Acompanhei muitos dias de reflexão e alguns de intolerância entre as partes aqui no Facebook: apoiadores e detratores do MaisMédicos. Acho que chegou a hora de soltar algumas linhas.

“Há um discurso que entristece aqui, vendo que o Governo e sua estratégia foram perfeitos: colocaram as classes sociais e profissionais pra brigarem por um tema polêmico, que envolve racismo, preconceitos diversos, de ambas as frentes , que ao contrário de construir algo, tem de forma geral nos diminuído e com isso toda a corrupção, alvo das passeatas e protestos, foi esquecida.

“É mais fácil que a população ache o médico um privilegiado e de certa forma somos sim, mas não porque a vida é/foi moleza pra nós, simplesmente a maioria se dedicou bastante e merece ter algum tipo de recompensa. Plantarás boas sementes e colherás bons frutos, dizem. Também não somos santos, ninguém é. Somos carne e osso, todos os seres, sentimos alegria, raiva, compaixão, inveja, bem e mal.

“A profissão que você tem não te humaniza, o que humaniza é a educação recebida em casa, é o ser humano bom que você é ou o canalha que optas ser, a escolha é sua.

“A faculdade não ensina a ser humano, nenhuma no mundo o faz.

“Gentileza e caridade são valores morais de uma sociedade, não do indivíduo. Começa no restaurante o mau atendimento, estende-se para a fila do banco, vai para a escola, termina num consultório. É, amigos, todos andamos em dívida com a tal humanização.

“Não existe médico playboy, mauricinho e desculpem a palavra, mas é tolo e apressado quem chama um estudante de medicina disso ou um médico de elite de branco.

“Veja o que é a vida dessa “elite” : Eu passei 6 anos dormindo no chão de salas de cirurgia do Socorrão quando era acadêmico, algumas onde faziam cirurgias com pus e eu tenho muito orgulho disso. Aprendi muito, saí da faculdade operando muita coisa legal.

“Quando fiz residência,morava numa moradia do hospital num quarto, um cubículo onde pra abrir a geladeira eu tinha que empurrar a cama. Eu pagava 120 reais por isso e digo: foi o melhor período da minha vida. Aprendi a dividir comida, a me aproximar dos meus amigos de moradia e me senti mais seguro ali. Nunca foi fácil, mas sempre valeu à pena.

“Meus colegas não são mauricinhos, nem santos, meus colegas, assim como eu, somos como qualquer um: seres humanos com uma profissão, cada vez mais maltratada por sinal, mas não quero passar idéia de vítima aqui, pois se chegamos a esse ponto, é porque nunca fizemos uma greve geral ou algo parecido, de forma que não prejudicasse os pacientes, mas nos desse mais força. Não se envolver, não dar a cara a tapa pra bater sempre é mais fácil, mas como toda escolha, você paga por elas.

“Nossos sindicatos e conselhos fazem o papel deles: defender a classe, pagamos anuidades pra isso e algumas vezes o fazem de forma atrapalhada, mas quem não erra. Se a intenção for boa, até o erro deve ser perdoado. Quem tem que proteger a sociedade como um todo é o Governo. Entidades de classe representam fatias da sociedade.

“Triste é ver candidato a governador falando em xenofobismo nazi-fascista por parte das entidades médicas. Parece discurso de acadêmico imaturo, que não teve idéia do que foi o massacre de judeus na Alemanha nazista.

“Houve um ou outro excesso pelas entidades, mas o povo brasileiro e os médicos brasileiros são pessoas trabalhadoras, como muitos outros profissionais. Não são nazistas, xenofóbicos. Aposto meu estetoscópio que essas pessoas que cometeram excessos já devem estar envergonhadas, ninguém gosta de diminuir outro ser humano, coisas são faladas em momento de raiva e passam. Já tive discussões com pessoas que hoje são melhores amigos pra mim.

“O médico,em geral, paga todos os seus impostos. Eu mesmo ano passado deixei alguns muitos reais só de imposto de renda pro governo. Doeu meu coração porque eu sei que esse dinheiro não chega a quem precisa e o Brasil, com raras exceções, não evolui mesmo.

“Após assistir esse Profissão Repórter da Globo e ver o de sempre: um hospital que é ou imundo e cheio de pacientes ou é subutilizado e super limpo, digo de maneira tranquila e sem qualquer ódio ou visão de partido político ou eleição, falo mesmo com um pouco de frustração que o culpado principal não é a Presidente, não é o Ministro da Saúde, não é a Governadora, nem o Prefeito, nem os parlamentares, muito menos os cubanos, esses pobres cubanos que vieram pra cá ganhar 300 dólares por mês, pois ganhavam lá apenas 30 dólares por mês.

“Se você, meu amigo médico pudesse ganhar 10 vezes mais do que ganha e ter oportunidade de comer carne todos os dias da semana, você com certeza o faria. Hoje eu vejo que deixaria minha família lá em Cuba pra poder dar uma chance deles terem 10, 20 vezes mais renda que antes, quem sabe o filho de um deles consegue fugir da Ilha e chegar em Miami num barquinho. Isso é procurar ser feliz. Quem não quer ser feliz?

“Como nós médicos brasileiros, os cubanos não são santinhos da Igreja que vieram fazer caridade. Claro que ganhar 300 dólares, menos que uma doméstica nos parece pouco, mas pra quem ganha 30 dólares por mês, receber 10 vezes mais é um sonho.

“Os culpados disso somos nós que elegemos essas pessoas e que não participamos da política pra cobrar. Tinha gente querendo passe livre no ônibus, mas a discussão do SUS ficou em segundo plano. Conheço muita gente que tem pena de pagar uma passagem, mas que gasta 30-40 reais de cerveja sem pena. Nada contra quem bebe, mas analisar as prioridades seria bom de vez em quando.

“Essas pessoas que estão na Prefeitura, Governo, Presidência são boas pra governar? Acho que não.

“Os que querem substitui-los são bons pra governar? Acho que não.

“Há solução pra isso? Claro que sim. Ano que vem tem eleição e ainda tem tempo de melhorar o seu voto. Não vote por conta de um emprego que te prometeram, lembra que o voto é uma transferência de responsabilidade. Você tira de você e passa pra um político fazer.

“Se ele não faz, a culpa é nossa também. Tem jeito de melhorar isso? Cobre dele, ponha na mídia. Políticos só respeitam opinião pública. Ou alguém acha que o Governo não fez uma pesquisa de opinião antes de soltar o Mais Médicos? Claro que eles viram que mais pessoas apoiariam e além disso, viram que as redes sociais que organizaram os protestos contra eles poderiam ser usadas pra protegê-los quando estimulassem uma guerra de opinião. Quando o país está em guerra, toda a irregularidade que tentam esconder fica em segundo plano e nós, pacíficos como somos, apenas cansamos de cobrar.

“Eles são inteligentes, mas nós podemos ser mais. Vamos baixar a guarda: estamos sendo usados pelo governo pra fazer guerra de classes e pior, nem pagam o salário para nós, os soldados.

“O médico quer ter uma carreira de estado. Eu sonho em trabalhar aqui como trabalham no Canadá, apenas em um emprego, ganhando bem. Quem não quer se dedicar só num canto, com boas condições, ter tempo de ler, ver o filho crescer, estudar e fazer um carinho na esposa. Os filhos de médicos tem mais transtornos psicológicos e com drogas que a média. Vocês acham que isso não mexe com o pai? Com essa mãe?

“Claro que os médicos de Cuba podem ser aproveitados, basta o Governo ser menos demagogo e criar uma prova semelhante ai Revalida, destinada apenas para o atendimento que eles vão participar, o de Medicina da Família. Poderiam pra diminuir a briga com o CFM dar a eles essa responsabilidade de fazer a nova prova. Uma provinha de português básico e expressões do interior seriam boas também. Veja: tem brasileiros de classes menos favorecidas que nem sabem falar português. O cubano talvez aprenda a falar português melhor do que o brasileiro sem educação. Quem tem boa educação aprende outros idiomas facilmente. Seis meses bastam.

“O governo brasileiro deve ao mesmo tempo que traz o cubano, deve valorizar o brasileiro e ajeitar os hospitais e postos de saúde, garantir remédios e a proteção de mercado que os brasileiros merecem. Seria covardia você querer diminuir o salário do brasileiro ou demiti-lo porque o cubano aceita menos que um salário mínimo. Cuba tem uma outra realidade e não tem como comparar com a do Brasil. O médico brasileiro tem direito de ser bem tratado, de ganhar bem e de trabalhar estimulado com alegria.

“Vejam vocês: basta acabar com esses ânimos exaltados, isso é ser marionete do governo e temos que deixar de ser.

“Basta negociar de forma madura como incluir o cubano no sistema. Eles não vem pra fazer cirurgia, concorrer com o plantonista do Socorrão. O programa é para Medicina Comunitária: aferir pressão,
controlar , cuidar dos diabéticos, coisas simples, mas que fazem diferença.

“Se o Brasil está ajudando a sustentar Cuba com isso, daqui a um ano basta darmos a resposta nas urnas e estimular as pessoas próximas e pacientes a não votarem neles. A força é do dono do volto e da estratégia de convencimento. O próximo Presidente vai nos olhar “desconfiado” e respeitar.

“Não precisamos enxergar os colegas como canalhas, eles são mais sofridos que nós, vítimas de um cativeiro que os faz viver mais. Comer menos carne vermelha em Cuba, por ser regrada aumenta a expectativa de vida da população local.

“Ter educação de melhor qualidade é bom, mas se a educação não é libertadora, pouco vale o 10 em matemática para uma mente presa, que não pode escrever algo como Yoni Sanchez fez. Viver 6 anos a mais de joelhos não compensa.

“Os bobos que se baseiam em números de expectativa de vida pra dizer que Cuba é o máximo esquecem da beleza da vida: não é o número de primaveras vividas, mas sim as flores que colheste nos jardins que abrilhantam a existência. Se não colheste flores, tua mulher não sorriu e não foste um homem feliz.

“Os que dizem que Cuba tem menor mortalidade infantil, se esquecem que o aborto lá é prática corriqueira e que claro que os fetos mais bem formados que sobraram vão viver mais depois. Um país que mata fetos, que causa traumas às suas mulheres não é um país bom. Qualidade de vida não é IDH. Qualidade de vida é ter escolha de acertar, errar , desenvolver-se e tentar ser feliz.

“Cuba não é exemplo pro mundo. Nenhum fruto de um governo que tolhe a liberdade das suas árvores humanas crescerem é exemplo de coisa boa. Animais de laboratório vivem bem, mas é o bicho solto no mato que tem as histórias mais vívidas pra contar.

“Não, os cubanos não vieram por ser bonzinhos, eles são de Cuba, não ET’s altruístas , mas isso não os torna ruins. Eles vieram pra ter uma chance melhor, como todos nós queremos ter. Canalha é a Presidência da República que atropela as coisas e essa plantação de discurso exclusivamente humanitário.”

José Machado

José da Silva Machado. Natural de Duque Bacelar - Maranhão, onde nasceu em 14 de junho de l957. Graduado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Maranhão, especialização Jornalismo. Foi repórter, editor e secretário de Redação nos jornais Pequeno, O Imparcial e Diário do Norte, em São Luís. Também foi diretor de Telejornalismo na TV Difusora (Rede Globo), no período 1985/198). Exerceu o cargo de Secretário de Estado de Imprensa e Divulgação do Governo do Estado (2006-2007). É poeta e escritor, tem lançado o livro "As Quatro Estações do Homem" e conclui o livro; "Os vinte contos de réis". Pai de 5 filhos e 1 neto.

Este post tem 3 comentários

  1. Socorro

    Dr. Moises, ainda vão chamar o senhor para o Socorrão; vão ver a besteira que fizeram; uma funcionária.

  2. Descartes

    Moisés, li seu artigo e vi que você tem tutano, já me informaram que você é bom médico, mas o prefeito EH não viu qualidade para administrar o Socorrão. Não fique abatido por isso, já que o próprio prefeito ainda não mostrou que sabe administrar. há há há

  3. Dude Aragão

    Estive no Socorrão quando da visita dos vereadores no início do ano…
    Desde aquele dia tenho dito a quem converso, quando falam sobre o Dr. Yglesio, que fiquei admirado com sua capacidade de argumentação e, ao mesmo tempo, convicção nas palavras! Nunca achei que fossem somente palavras jogadas ao vento por um bom orador…
    Acredito ainda nas pessoas que, ainda, tentam fazer sua parte para mudarmos nossa situação!

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