Dono de academia que barrou jovem por ‘parecer marginal’ é indiciado pela polícia
"Como toda, mãe fiquei revoltada. Eu amo meu filho", disse Katia (Foto: Fernando Brito/G1)

Dono de academia que barrou jovem por ‘parecer marginal’ é indiciado pela polícia

Empresário afirmou que rapaz de 17 anos, negro e tatuado, ‘parecia bandido’. Acusado de racismo, homem pode pegar de um a três anos de reclusão.

G1 Piauí

“Como toda, mãe fiquei revoltada. Eu amo meu filho”, disse Katia (Foto: Fernando Brito/G1)

A Polícia Civil do Piauí indiciou o proprietário de uma academia localizada na Zona Sul de Teresina por ter impedido um jovem de frequentar seu estabelecimento porque ele teria a ‘aparência de um marginal’. O caso foi denunciado pela mãe do rapaz na Delegacia de Proteção aos Direitos Humanos e Repressão às Condutas Discriminatórias da capital em março de 2015, e agora o dono da academia deve responder na Justiça por racismo.

Após quatro anos na academia, jovem é barrado por 'parecer marginal' (Foto: Fernando Brito/G1)
Após quatro anos na academia, jovem é barrado por
‘parecer marginal’ (Foto: Fernando Brito/G1)

As informações foram confirmadas pelo delegado Emir Maia, que comandou as investigações e encerrou o inquérito na última sexta-feira (26).

Segundo ele, a Polícia chegou à conclusão do caso através do depoimento de testemunhas que presenciaram a prática discriminatória. O caso agora segue para a Justiça e, segundo o delegado, cabe à promotoria do Ministério Público julgá-lo.

“Chegamos à conclusão de que o professor, proprietário da academia onde o jovem malhava, expulsou ele por discriminação e racismo. Diante de informações testemunhais, nós o indiciamos e demos por encerrado o caso, que será enviado à justiça ainda nesta semana”, disse.

Ainda segundo o delegado, se for condenado, o dono da academia pode pegar de um a três anos de prisão. O crime de racismo é inafiançável e imprescritível.

G1 tentou ligou para a academia onde o crime de racismo ocorreu, mas até o fechamento desta reportagem ninguém atendeu às ligações.

Repercussão

A mãe do jovem, Katia Rejane de Sousa, que é professora e orientadora social, disse que não se calaria frente ao processo e pediu que o juiz fosse sensível ao caso para que o homem seja punido.

“A repercussão do caso até trouxe comentários negativos, como já esperávamos. Infelizmente isso mostra que o ser humano ainda é muito preconceituoso e julga muito as pessoas pelo que elas são, e em muitos casos, como o do meu filho, julgam pela aparência”, afirmou Katia.

“A denúncia foi simplesmente para que a justiça fosse feita, para fazer com que ele reconheça que agiu de forma preconceituosa. Trabalho com violação de direitos e não poderia deixar ou admitir que o meu filho passasse por isso”, afirmou.

Segundo o cientista social, Marcondes Brito, que é mestre em políticas públicas e pesquisador na área da juventude, violência e tráfico de drogas, o racismo no Brasil possui uma peculiaridade muito grande, que se refere a questões de aparência. E isso, segundo ele, se refere muito a questões de estigma que o país enfrentou com a escravidão. Para Brito, o Brasil é um dos países mais preconceituosos do mundo.

“Esses comportamentos nascem daquilo que a gente partilha como valor e é passado de geração em geração. A educação é uma forma forte de quebrar isso, se a educação fosse voltada para o mundo da vida”, afirma Brito.

“Se você estuda, aprende os conteúdos temáticos e de que deve respeitar o outro, mas você vivencia constantemente situações de comportamentos de discriminação, e sem fazer uma reflexão crítica, você passa a assimilar que a criminalidade, por exemplo, está sempre ligada à pobreza, e especificamente à cor, e à aparência”, diz.

Entenda o caso
Em março de 2015, Katia Rejane de Sousa, de 41 anos, registrou um boletim de ocorrência na Delegacia de Proteção aos Direitos Humanos e Repressão às Condutas Discriminatórias em Teresina,  depois que o filho foi impedido de frequentar a academia onde já treinava.

A justificativa dada pelo proprietário da academia, segundo ela, teria sido porque o rapaz tinha “aparência de marginal”. O fato aconteceu no bairro Monte Castelo, Zona Sul da capital.

Na época, o G1 entrou em contato com o proprietário da academia, mas ele informou que desconhecia o fato relatado pela mãe do jovem. Ele contou ainda que a queixa não chegou ao seu conhecimento e negou a existência de casos de discriminação dentro do estabelecimento.

José Machado

José da Silva Machado. Natural de Duque Bacelar - Maranhão, onde nasceu em 14 de junho de l957. Graduado em Comunicação Social, pela Universidade Federal do Maranhão, especialização Jornalismo. Foi repórter, editor e secretário de Redação nos jornais Pequeno, O Imparcial e Diário do Norte, em São Luís. Também foi diretor de Telejornalismo na TV Difusora (Rede Globo), no período 1985/198). Exerceu o cargo de Secretário de Estado de Imprensa e Divulgação do Governo do Estado (2006-2007). É poeta e escritor, tem lançado o livro "As Quatro Estações do Homem" e conclui o livro; "Os vinte contos de réis". Pai de 5 filhos e 1 neto.

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