Existem, sem sombra de dúvida, milhares de formas de demonstrar amor por alguém. Levar café da manhã na cama, ajudar o outro a fazer a declaração de imposto de renda, dividir um sanduíche de mortadela, escrever longas e bonitas cartas, aguentar coisas na família do outro que, por vezes, nem na sua você aguentaria. Sim, há muitas formas de demonstrar amor.

Mas existe uma prova de amor que, segundo estudos das melhores universidades, está entre as maiores do mundo: dormir ao lado de alguém que ronca. Pessoas que não fazem suas malas e vão embora apesar do ronco do outro têm um grau elevadíssimo de altruísmo e de compreensão, assemelhando-se, em alguns aspectos, à Madre Teresa de Calcutá ou ao Gandhi.

As pessoas que roncam podem ser classificadas em algumas espécies: as que negam que roncam, as que quase admitem que roncam, as que roncam muito mas só admitem que roncam um pouquinho e, por fim, as que roncam tanto que nem tem qualquer condição de negar que parecem britadeiras noturnas assombrando a vizinhança.

Hoje em dia, com o auxílio da tecnologia, ficou muito mais fácil provar ao roncador o tamanho do incômodo que ele gera àqueles que o cercam. Através da gravação de vídeos e de áudios fica comprovado o ato, de uma vez por todas, evitando respostas evasivas como “ela diz que eu ronco, mas eu nunca ronquei na vida, não é possível, ela deve sonhar com isso”.

E, acerca do ronco em sim, há diferentes tipos de volume. Aquele ronquinho que atrapalha o sono de quem dorme ao lado, mas não chega a acordá-lo; aquele ronco médio que acorda o companheiro, mas que permite que ele adormeça de novo e, por fim, o ronco de animais suínos, que faz um barulho insuportável, sendo resistente a portas fechadas, travesseiros na orelha e tampões de ouvido.

Também temos diversos comportamentos noturnos dos roncadores. Aqueles que se assustam com o próprio ronco e acordam gritando coisas como “ESSVIZGRL MONGS DA AERONAVE EU TAVA RONCANDO??!!”. Outros que roncam horrores mas são carinhosos e vão abraçando a outra pessoa até que consigam roncar exatamente em cima da orelha dela, num misto de afeto e tortura. Outros, nada dóceis, que, ao roncar, recebem do companheiro um toquinho na barriga como tentativa de reduzir o ruído ou de fazê-los virar, e, o roncador, achando que era um carinho, responde grunhidos como “sai”, “me deixa dormir” ou “pára com isso”.

Seja qual for a espécie: os roncadores assumidos ou não assumidos, de volume alto ou baixo, fofinhos ou ásperos, dormir ao lado deles nunca será uma tarefa fácil. E alguém que decida, no pleno exercício da sua liberdade, ter noites turbulentas dia após dia, pela simples vontade de dormir ao lado de quem se ama, é alguém digno de algum louvor.

Trata-se, de fato, de uma genuína e intensa prova de amor. Valorizem-nos, pessoas que roncam, valorizem-nos porque não está sendo fácil.


Ruth Manus

Ruth Manus – Retratos e relatos do cotidiano